Guest Post: Viajar sozinho

Vai, mesmo com medo.

Esta é a frase que tenho de repetir a mim mesma, vezes sem conta.

Quando fiz o teste do chapéu seleccionador no site Pottermore, inicialmente fiquei desapontada por não me ter colocado em Gryffindor, mas já há muito que me convenci de que a coragem não é um dos trejeitos que me define melhor: tenho medo de demasiadas coisas. Medo de me perder, medo de não saber, medo de não poder ou não conseguir. É muito mais o medo, do que a coragem, que me guia.

Para quem tem medo dos caminhos ainda não percorridos, como eu, viajar é verdadeiramente uma aventura, mesmo que eu me muna de mapas e aplicações: as aplicações porque me orientam melhor, e os mapas para o caso de a aplicação falhar. Traço opções alternativas e planos secundários, caso o caminho inicial e o plano primeiro falhem. Se me sentir segura, aproveito melhor a viagem. Dizem que estar perdido é encontrar caminhos novos, mas quando eu me perco só penso em tudo o que pode correr mal. Admiro quem viaja à boleia com meia dúzia de trocos no bolso; admiro quem, realmente, vai sem medo.

Mudei-me para a Bélgica em 2011 e vivo sozinha por cá há um ano e meio. Nesse ano e meio aprendi muito sobre mim e sobre os meus medos, sobre a minha ânsia de criar raízes e pertencer e, ao mesmo tempo, de querer partir e não ser de lado nenhum. Não dependo de companhia para fazer o que, normalmente, se faz acompanhado, e há uma liberdade imensa em viajar só comigo mesma. Como diria o poeta José Régio, não sei por onde vou, não sei para onde vou, sei que não vou por aí. Sozinha, posso ir para onde quiser e não para onde me ditam. Sozinha, o mundo equilibra-se debaixo dos meus pés apenas e o caminho pertence-me por inteiro. Quando viajamos sozinhos é como se guardássemos um segredo: o segredo de nos vermos verdadeiramente libertos das amarras que a práctica comum nos tenta colocar. Podemos ir sozinhos, sem medo. Ou com ele.

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O bem de viajar sozinho é que há outros, como nós, dispostos a quebrar a solidão. Numa viagem a Gent, para um concerto, cheguei sozinha ao meu quarto de hostel e perguntei ao único ocupante que camas é que ainda não tinham sido reclamadas. Depois de umas frases trocadas em Inglês – porque não há nada como um pedido de informação para se travar uma amizade fugaz – ele pergunta-me de onde venho. Ao dizer que sou Portuguesa ele exclama, sorrindo, num Português com mais gerúndios do que o meu: mas então você fala Português! Anderson, de São Paulo, em Gent num intercâmbio universitário, tornou-se no meu companheiro de viagem por um fim-de- semana. Foi ao concerto comigo, apresentou-me aquela que iria ser a sua cidade durante um ano e, ao final da noite, acabámos a jantar as famosas frietjes met mayonaise belgas com outro hóspede do hostel, a conversar e a rir até à uma da manhã. Viajar sozinho é muito isto; permitimos que se abram portas que, acompanhados, nem sequer existiriam.

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Gosto de viajar de comboio. Quando viajo de avião as más possibilidades apresentam-se todas à minha frente; se viajo de carro para cidades grandes e confusas, as más possibilidades apresentam- se em todo o lado. De comboio, os meus olhos ajustam-se à paisagem e a mente alcança o destino várias vezes antes do corpo lá chegar. Se a viagem também é o caminho que se faz para chegar onde queremos, quando viajo de comboio faço o caminho com gosto, demore o que demorar.

Levo sempre livros comigo, vou viajando na viagem. Não há melhor solidão do que aquela que partilhamos com os nossos autores predilectos.

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Viajar sozinho é como tudo o que requer prática: quando mais se viaja, menos medo se tem. Por isso, vai. Leva o medo, se for preciso; um dia vais olhar para o lado e perceber que ele foi o teu melhor companheiro de viagem e que, sem sequer dares conta, o deixaste apeado numa estação qualquer.

*

Queria agradecer à Isadora o convite para fazer (ainda mais) parte do Vai Sem Medo. Obrigada por nos deixar embarcar na viagem.


Sobre a Carina: Sou Portuguesa, nascida em Janeiro de ’87, e vivo na Bélgica desde 2011. Desde que fui capaz de juntar as primeiras letras que me recordo de escrever pequenas quadras. Gradualmente, as quadras foram-se tornando poemas e, mais tarde, também as narrativas passaram a fazer parte dos meus escritos. Na Bélgica, sou emprega de limpeza; no meu blog, Contador D’Estórias, sou escritora em aprendizagem e tudo o mais que me apaixona: música, filmes, livros e o que vai aparecendo pelo meio.

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9 comentários sobre “Guest Post: Viajar sozinho

  1. Mas que depoimento maravilhoso de se ler e de viajar junto! Adorei saber de suas experiências e, principalmente, de saber que o medo é comum, muitas vezes necessários mas que jamais deve impedir alguém de iniciar essa experiência sem igual. Viajei sozinha já na fase madura de minha vida, em 2010. Fui também com certo medo mas encarei e assim como você, conheci pessoas, fiz amizades e digo: só fica sozinho quem quer. Depois disso, viajei outras vezes mas sempre por aqui,no Brasil. Seu depoimento me dá coragem para viajar para o exterior. Só preciso aperfeiçoar meu inglês. Parabéns!

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    1. Agradeço imenso as suas palavras. Minhas amigas sempre apontam, com humor, que eu faço listas para tudo e me preparo e preocupo demais, mas quem cresceu com uma mãe que também tem medo de tudo esendo que só depois dos 20 é que comecei a viajar – sem sequer ser sozinha – é realmente difícil não ter medo de ir. Sempre gostei de passar tempo comigo mesma, desde os 18 que aprecio muito ir ao cinema sem companhia, e vou jantar fora sozinha muitas vezes também, mas para sair da zona de conforto e ir a lugares desconhecidos fica mais difícil. Daí que isso me tenha inspirado a escrever esse texto. Espero que ele realmente inspire outras pessoas a ir. Beijinho!

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    1. Olá! Obrigada pelo comentário! Eu vi e segui o teu blog ontem, achei muito interessante! Apesar de viver na Bélgica, escrevo muito pouco sobre o país, daí ter gostado do teu blog, é muito informativo! Eu também vivo em Flandres! Fiquei curiosa agora com teres vivido em Portugal! 🙂

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  2. Ah, como eu te entendo. Da última vez que eu viajei “sozinha”, eu voltei pra casa com um namorado, um círculo de amizades extremamente multicultural e um passaporte carimbado em três continentes. Eu não faria nada diferente. Parabéns por trazer essa reflexão e, claro, já estou seguindo o seu blog. 🙂
    Se quiser conhecer o meu, seja bem-vinda: https://thaisbrulinger.com

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